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| Conheça a“biografia” da bolinha |
Nas eleições de 2010, um dos candidatos a governador não se furtou de mostrar apreço e fidelidade, nas redes sociais, ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em cuja imagem apoiou-se durante a campanha. O administrador do perfil desse candidato teve a preocupação de inscrever seu empregador nas mais diversas listas de apoio a Lula. Uma delas era “Lula presidente em 2012”. Em 2012? Mas a próxima eleição presidencial não será em 2014? A página, na verdade, era um deboche que apresentava uma foto de Lula usando a faixa presidencial argentina.
Micos como esse e outros erros na utilização das redes sociais no pleito de 2010, no entanto, não foram determinantes para o fracasso de nenhum candidato. O processo eleitoral de 2010 iniciou com a falsa expectativa de que a internet seria determinante nos resultados das urnas. Essa impressão caiu logo no início do processo – a enxurrada de perfis de políticos “forçando amizades” aleatoriamente e o mau gerenciamento das informações postadas foram motivo para protestos dos internautas participantes das redes.
Três erros devem ser observados na utilização das redes sociais feita na campanha de 2010:
- Avaliou-se quantidade de seguidores ou contatos de rede e não se deu atenção à qualidade da relação destes com o dono do perfil. A maioria eram ilustres desconhecidos e assim permaneceram, sem nada contribuir com as candidaturas.
- Os pretensos eleitores também não foram beneficiados com conteúdos de qualidade que fossem decisivos para a decisão de voto. Ninguém foi sensibilizado ou mobilizado.
- A incorporação indiscriminada de contatos de rede, por iniciativa dos administradores dos perfis, não permitiu sequer que as redes sociais servissem de “termômetro” das campanhas.
O uso das redes sociais na campanha brasileira muito pouco teve em comum com a campanha presidencial americana, na qual o então candidato Barak Obama obteve expressivos resultados tanto na arrecadação de fundos quanto na mobilização de cabos eleitorais e na conquista de votos.
Qual a diferença fundamental? A rede do democrata foi construída ao longo de meses de trabalho planejado e orientado, com investimento financeiro adequado, pessoal dedicado ao trabalho de construção e alimentação da rede, uso de técnicas e ferramentas orientadas e mobilizando um público já existente de filiados e simpatizantes do Partido Democrata. A “rede” já existia. A internet promoveu a integração dos núcleos geograficamente dispersos pelo território estadunidense. Os integrantes da rede primária tiveram o papel de multiplicadores e motivadores.
No Brasil, “marqueteiros” de ocasião passearam de comitê em comitê vendendo soluções fantásticas que aumentavam exponencialmente a propagação das mensagens no Twitter – “trending topic instantâneo”; inflavam o número de amigos no Facebook; disparavam zilhões de e-mails para mailings de origem desconhecida – pelo menos não oficialmente declarada –; e, cereja do bolo, criavam a rede instantânea com o primo brasileiro do sistema usado na campanha de Obama (MyObama), o Meu Candidato. Boa parte das ideias desses vendilhões das urnas infringia artigos da legislação eleitoral.
O resultado da campanha política via internet em 2010 foi a produção de muito lixo virtual. Como ferramentas de mobilização, as redes sociais pouco serviram; o uso para propaganda foi um fiasco; o viés noticioso foi tedioso e desinteressante. Mas é impossível deixar de reconhecer que alguns momentos dos debates políticos chegaram a ser trending topics: quando rendiam boas piadas.
Entre os deboches que ganharam evidência no processo eleitoral figurou @Bolinha_dePapel, perfil criado no Twitter pelo cartunista Custódio, após o incidente envolvendo o candidato José Serra, no Rio de Janeiro, em 20 de outubro de 2010. Em apenas quatro horas, o perfil conquistou aproximadamente 2 mil seguidores, que deram boas risadas às custas de piadas sobre o episódio. (Conheça a“biografia” da bolinha)
Se o leva e traz nas redes sociais não ajudou as campanhas como esperado, tampouco atrapalhou como gostariam os desafetos e concorrentes que jogaram baixo. As verdades parciais, fofocas sobre pacto com o demônio, homossexualidade e outros boatos convencem menos no meio eletrônico que em panfletos apócrifos.
Para que a internet e, em especial, as redes sociais tenham seu potencial explorado adequadamente nos próximos pleitos, políticos e partidos precisam ter a noção de que devem estruturar suas redes estrategicamente, com antecedência, trabalhar continuadamente e de forma integrada nos diversos níveis geográficos de interesse: municípios, sub-regiões, estados, regiões, até a totalidade do território nacional.
Para que a internet e, em especial, as redes sociais tenham seu potencial explorado adequadamente nos próximos pleitos, políticos e partidos precisam ter a noção de que devem estruturar suas redes estrategicamente, com antecedência, trabalhar continuadamente e de forma integrada nos diversos níveis geográficos de interesse: municípios, sub-regiões, estados, regiões, até a totalidade do território nacional.
O próprio desavisado apoiador do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na falsa campanha presidencial argentina é exemplo de que deslizes, gafes, acertos e deboches não representaram grande coisa no pleito. Hoje ele é governador do Distrito Federal – Agnelo Queiroz, do Partido dos Trabalhadores.
Nicolas Bonvakiades*
Jornalista, coordenador da Azimute Comunicação
*Trabalhou no desenvolvimento de conteúdos para internet na campanha eleitoral no Distrito Federal e não conseguiu emplacar sequer uma boa piada nos trending topics.

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